Quinta-feira, Novembro 26, 2009

this is not an industrial plant

Não é de facto forçoso que os professores tenham uma "«carreira plana» isenta de escalões profissionais". Há até muito boas razões para que assim não seja (desde que devidamente ponderadas e assentes no objectivo de melhorar a qualidade do ensino). O problema é que entre essas razões não figura, seguramente, a fixação trapalhona e a martelo de escalões distintos, com a exclusiva finalidade de adaptar o modelo de avaliação de desempenho da função pública aos docentes do ensino básico e secundário. Aliás, este objectivo sempre escondeu um outro, bem mais profundo e que se tornou crescentemente indisfarçável: o de proceder a um corte orçamental na educação, descurando a mínima reflexão sobre a adequabilidade das medidas e o seu impacto no funcionamento das escolas e na qualidade de ensino.
A degradação da escola pública foi, na verdade, conduzida por quem - na senda de uma engenharia sociológica sobranceira e ignorante - actuou sem revelar especial capacidade para compreender (e valorizar) o que é o universo do ensino não superior.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

inexplicavelmente impossível

Comprar um simples caderno ou um bloco de notas na estação de Santa Apolónia, uma das portas de entrada da capital de um país europeu.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

escutas

"O eng. Sócrates foi apanhado por uma escuta a falar com Armando Vara. Claro que fortuitamente, ou seja, a escuta não se destinava a recolher informações sobre ele, mas sobre Vara. De qualquer maneira, dezenas de pessoas ficaram a saber sobre ele o que em nenhuma circunstâcia deviam saber e como de costume chegaram aos jornais rumores - não autentificados - que o prejudicam. Uma lei sensata mandaria selar imediatamente a gravação e, se por acaso existissem indícios de alguma actividade criminosa do primeiro-ministro, determinaria que ele respondesse pelo que fizera (ou deixava de fazer) no fim do seu mandato. A lei vigente junta o pior de dois mundos. Cria suspeitas que não resolve e, de caminho, diminuiu a principal autoridade de que os portugueses dependem."

(Do artigo de Vasco Pulido Valente, no Público de 20 de Novembro)

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

uma história da música (X)


Paris (Supertramp, 1979)

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

moderar o acesso a bens públicos

"(...) Por que razão parece haver uma predilecção por “sinais de trânsito” monetários (incentivos)? Porque isso reflecte a visão mercantil da sociedade de quem os promove (para não falar de interesses mercantis). Qual é o problema de haver (ou ter havido) quem promova a visão mercantil a partir do ministério da saúde? É simples:
Primeiro. A visão mercantil da sociedade que assume uma essência gananciosa dos humanos, sendo falsa, tende a tornar-se verdadeira quando todas as relações sociais (incluindo a provisão e o uso de bens essenciais à vida) são transformadas em transacções mercantis.
Segundo. A transformação de todas as relações sociais em relações mercantis exclui (da prestação de cuidados de saúde) quem não dispõe do passaporte que nessa sociedade abriria todas as portas – o dinheiro.
Terceiro. A generalização do dinheiro a todas as esferas relacionais privar-nos-ia de bens (inclusive na prestação de cuidados de saúde) que o dinheiro não pode comprar. Estou a pensar na honestidade, na solidariedade e na compaixão."

(José Maria Castro Caldas, a propósito de uma conversa entre João Rodrigues e Porfírio Silva sobre o recurso a taxas moderadoras no Sistema Nacional de Saúde).

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

os rankings e o território (III)

A representação cartográfica por concelho dos resultados dos exames nacionais (2009), reforça o anterior retrato social do país. A evidência de manchas contíguas (acima da média nacional na faixa litoral Centro e Norte e abaixo dessa média no interior Norte e no Sul), mostra como podem ser muito equívocas as interpretações que associam linearmente os resultados dos exames ao desempenho das escolas, ignorando portanto aquele que é porventura um dos factores explicativos mais importantes: o do contexto social e económico em que os estabelecimentos de ensino se inserem.
A reforçar esta hipótese, observa-se ainda a tendência para que os concelhos capitais de distrito, ou concelhos cujas áreas urbanas são relevantes no contexto do distrito em que se inserem, obterem melhores resultados que os concelhos envolventes (particularmente nas regiões do interior e no Sul). O que sugere a existência de uma forte correlação entre os níveis de urbanização (com tudo o que se lhe pode associar em termos de desenvolvimento) e o desempenho escolar dos alunos.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

filmes do mês: outubro


Welcome, de Philippe Lioret, Rachel, de Simone Bitton, Kill the Referee, de Yves Hinant (estes últimos exibidos no DocLisboa). O que leva um jovem imigrante iraquiano em França a suspender a vida por um fio, ao tentar atravessar a nado a corrente gelada do Canal da Mancha? O que leva uma jovem americana a abandonar o conforto de uma existência almofadada para proteger, com a sua própria vida, a vida de pessoas em Gaza? O que leva alguém a querer ser árbitro de futebol?

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

tarde caíu, pior ter existido

"Perante a efeméride da queda do Muro de Berlim, alguma esquerda não resiste lembrar-nos de que, não obstante a liberdade chegada aos países de Leste, 1989 significou também o triunfo do neoliberalismo e, com ele, a universalização da desregulação económica, a retracção do Estado Social e um continuado cavar das desigualdades entre os países ricos e os países pobres. Isso até será verdade, mas a grande falácia é pensarmos que a intocada hegemonia do neoliberalismo se deveu à queda do Muro de Berlim.
Bem ao contrário: é o facto de o Muro ter sido construído em nome de um mundo radicalmente mais justo que há muito rouba possibilidades a quem queira imaginar um mundo radicalmente mais justo. O Muro de Berlim e o regime que o ergueu continuam a dar mau nome a qualquer esperança que se atreva a tentar superar o capitalismo predatório. Tarde caiu, pior ter existido."

(Bruno Sena Martins, no 5dias, via Arrastão)

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

surpresas

A morte recente, aos quase cento e um anos, de Claude-Lévi-Strauss. E a comemoração do nonagésimo aniversário, em vida, de Mikhail Kalashnikov.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

berliner mauer


Good Bye Lenin!, de Wolfgang Becker (2003)

Domingo, Novembro 08, 2009

trinta anos

Sábado, Novembro 07, 2009

vinte anos


Queda do Muro de Berlim (1989)
(Fotografia da exposição permanente no Checkpoint Charlie)

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

os rankings e o território (II)

Uma análise que evidencia a importância dos contextos locais no "desempenho" das escolas é-nos também dada quando, a partir da informação relativa aos resultados dos exames nacionais de 2009, apuramos o peso percentual de escolas com média negativa numa determinada área.
À semelhança do mapa anterior (relativo à média de resultados por NUTS III), torna-se claro o contraste entre o Litoral Norte do País (onde em regra o número de escolas com médias de classificações negativas não atinge os 10%) e o Interior Norte e Sul onde, com a excepção do Algarve e de algumas NUTS do Interior Centro, a percentagem de escolas com resultados negativos nos exames de 2009 é superior a 12,5% (chegando a atingir valores na ordem dos 30% no Alto Alentejo e Douro).
No caso da Grande Lisboa, a comparação entre os dois mapas permite ainda ilustrar como, num mesmo contexto territorial, podem coexistir boas e más escolas. Antes de se estabelecer uma relação directa entre o desempenho dos docentes (e da própria escola) e esses resultados, importaria analisar essa relação com os perfis socio-económicos dos alunos que frequentam cada estabelecimento de ensino.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

david harvey


The Crisis Now (Marxism 2009 / Bloomsbury / July 5 2009)

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

os rankings e o território (I)

Actualizando um exercício feito em 2008, o mapa da esquerda agrega territorialmente, por NUTS III, os resultados dos exames relativos ao Ranking de Escolas 2009. Como sempre, os meios de comunicação social (designadamente os jornais), concentram-se na análise dos dados  por escola (procurando assim diferenciar as melhores das piores) e fazem-no ignorando em regra o contexto socio-económico em que estas se inserem. Ora, ao agregar os dados ponderados(*), confirma-se que os rankings nos dão um retrato que é - na sua essência - um retrato do território e das suas desigualdades (marcado pelas diferenças entre o litoral e o interior). Isto é, mais do que distinguir estabelecimentos de ensino, os rankings reflectem os diferentes níveis de desenvolvimento económico e social do país. O destaque do Baixo Mondego (a unidade territorial com os melhores resultados) face à Grande Lisboa e ao Grande Porto poderá dever-se a uma menor discrepância de resultados entre as escolas que integram aquele espaço. Ou seja, a uma maior coexistência, em Lisboa e no Porto, de escolas com melhores e piores resultados (no caso do Baixo Mondego o desvio padrão situa-se em cerca de 7,6%, sendo bastante mais significativo em Lisboa, com 9%, e no Porto, com 8,2%).
(*) Os dados foram ponderados tendo em conta as médias obtidas e o número de exames realizados em cada escola, sendo o mesmo procedimento adoptado para apurar, a partir de cada concelho, os valores das NUTS III. Para compatibilizar resultados do Ensino Básico e do Ensino Secundário, as respectivas escalas de classificação foram convertidas numa escala de 0 a 100.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

songs for the season


"It's the farthest place I've ever beenIt's a new frontier for me ■ And you balance things ■ Like you wouldn't believe ■ When you should just let things be ■ It's the narrative that must go on ■ Until the end of time ■ Small metal Gods ■ From a casting line ■ From a factory in Mumbai ■ Some manual labourer's bread and butter ■ And a single-minded lie"
(David Sylvian, Manafon, 2009)

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

e mais um dia que não nasce

"A propósito de uma exposição como aquela a que agora me sujeito senti a precisão deste outro suporte para vos dizer três coisas e vos fazer um apelo. A primeira é que uma exposição é um momento que, por si só, nada é. Exactamente da mesma forma que a exposição, enquanto momento da técnica fotográfica, nada é. Apesar de ser o momento mágico em que tudo se passa. Com as características que se passa. Mas sem o aparelho fotografico, que aqui é o vosso corpo, sem o filme, que é a memória em que a realidade se projecta - com mais ou menos sensibilidade, com mais ou menos grão - uma exposição não é nada. E penso que sem a revelação e a fixação do vosso raciocínio esta exposição, como todas as outras, continuará a ser o que era. Nada. Poderá ser alguma coisa apenas quando ligardes o vosso ampliador, colocardes o papel, introduzirdes um negativo vosso e, assim, crieis o que quer que seja. A segunda coisa que vos quero dizer é que Afife é tão longe de Coimbra como quaisquer outros dois pontos do universo. Não são o mesmo ponto, e é tudo. Mas podem ser o mesmo ponto e é tudo novamente. Apesar de em Coimbra não haver uma serra tão bonita como a de Santa Luzia, em Afife há um cemitério. Com o que nós sabemos à porta. Mas sem a panorâmica revigorante do da Conchada. Não se pode ter tudo, nesta vida. Nasce-se e morre-se. Não há tempo a perder. Sobretudo porque na morte não só não se pode ter tudo, como na vida, como não se pode ser nada. A terceira era uma passagem de Gorki. Com as alterações resultantes das dezenas de vezes que a contei sem a reler, é apenas uma história que me dá muito jeito. Euzel é um órfão adoptado por uma aldeia. Todas as famílias da aldeia cuidaram dele rotativamente, até à idade adulta. A aldeia era igual a todas as aldeias. As famílias iguais a todos os grupos. Inveja, ódio, vingança, violência. O órfão cresceu sem pertencer a nenhum deles. Pertencia à aldeia. A aldeia tinha um conselho de anciãos. Quando adulto, as opiniões dele eram ouvidas pelos membros do conselho. Isenção. Era o que lhe apreciavam. Um dia a aldeia ardeu. E enquanto ardeu, todos se aplicaram por igual e em conjunto na tentativa frustrada de salvar a aldeia. Com o cenário desolador da aldeia destruída como pano de fundo, o conselho reuniu-se para decidir que rumo se havia de dar à aldeia. O órfão não disse nada. Quando lhe perguntaram o que pensava ele de tudo aquilo, respondeu: "... era preciso que estivesse sempre a arder...". O apelo que vos faço é o de colocarem o vós mesmos a hipótese de, entre um dia que nasce fumegante e uma morte que se lembra com o fogo, esta aldeia poder estar sempre a arder. Basta querer."

(Luís Paulo Sousa, "Quatro mortes e mais um dia que não nasce", 1997)

Sábado, Outubro 24, 2009

doclisboa


Filmes visionados na edição do doclisboa deste ano (do mais para o menos apreciado): Rachel, de Simone Bitton ("Uma exaustiva investigação sobre a morte de de uma jovem desconhecida, feita com um rigor normalmente reservado às grandes personalidades. O filme dá a palavra a todas as pessoas envolvidas na história de Rachel, uma jovem pacifista norte-americana morta na Faixa de Gaza, depois de esmagada por uma retroescavadora israelita, enquanto tentava evitar a destruição de uma casa palestiniana"); Kill the Referee, de Yves Hinaut ("Como podem alguns minutos de um jogo de futebol virar do avesso a vida de uma família inteira? O que sentem os "homens de preto" quando são alvo da fúria dos adeptos? Kill the Referee revela-nos a tensão secreta dos árbitros de futebol nos bastidores de uma grande competição internacional: o Mundial de 2006"); Lisboa Domiciliária, de Marta Pessoa ("Lisboa. As casas morrem de velhas, mas não morrem sozinhas. Nos prédios altos, por detrás das janelas, há um mundo dentro do mundo. São pessoas, idosos na maior parte, quase imóveis. Os corpos unem-se às casas e criam uma nova arquitectura. Para entrar neste universo é preciso mais do que passar a porta");  Saudade do Futuro, de Marie Clémence & Cesar Paes ("Um documentário musical que nos conta a história dos nordestinos pobres que viajam para o sul com o objectivo de encontrar fama e fortuna - ou pelo menos uma vida melhor - na vibrante cidade de São Paulo, no Brasil"); e Until the next Ressurrection, de Oleg Morozov ("Um filme de fantasmas com referências dostoievskianas Rodado ao longo de dez anos, quase todas as personagens morreram durante as filmagens. Algumas semanas após terminar a montagem, o realizador Oleg Morozov faleceu - um acontecimento que transformou a obra numa espécie de testamento e de discurso sobre o (não) valor da vida em situações limite").

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

cinquenta anos


Astérix, de Goscinny e Uderzo

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

a experiência do silêncio

"Não é apenas a edição das texturas livres proporcionadas por um naipe de grandes músicos (Evan Parker, Keith Rowe, Otomo Yoshihide, Sachiko M, John Tilbury ou Fennesz) que parecem ainda mais mínimas e reduzidas. É também a voz de Sylvian que está diferente. O seu timbre e entoação quase não se alteram ao longo das nove canções. Quem guarda a recordação do cantor pop pode sair desiludido desta opção. Mas a intenção de Sylvian é clara, adoptando o papel de narrador. A voz no centro. Em redor quase silêncio, figuras electroacústicas surgindo, de vez em quando, nos intervalos. Não é um disco fácil. Não é música de fundo. Não promete a luz como se esta fosse uma receita médica. Exige atenção aos detalhes. Pode parecer frio, demasiado virado para si próprio, mas quem mergulhar nele encontrará um universo de pequenas variações, de nuances, de recantos que apetece habitar. É um disco do nada. Do nada que cresce lentamente e é capaz de criar qualquer coisa de orgânico à sua volta. Movendo-se constantemente, mas parecendo imóvel, como um quadro na parede. Não se ouve, absorve-se, mistura de nostalgia e esperança, espaço para cada um construir um lugar de quietude só para si."
(Vitor Belanciano sobre Manafon, no Público de 1 de Outubro. Entrevista aqui)

Terça-feira, Outubro 20, 2009

frases que dizem tudo

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

al sul


Moreira de Rei, Trancoso (Foto de Carlos Nolasco, 2007)

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

o bloco e o futuro

A bipolarização e a escassa implantação política local foram as duas razões invocadas para justificar os fracos resultados eleitoriais obtidos pelo Bloco de Esquerda nas eleições autárquicas. Contudo, estando em jogo configurações político-partidárias muito distintas a nível concelhio (tanto em termos de propensão para a bipolarização como em termos de implantação local), essas razões revelam-se implausíveis para explicar o padrão de resultados verificado em todo o país.
Na verdade existe (não é de agora e todos bem o sabem), uma outra hipótese explicativa, bem mais consistente e estrutural, de que o recente desaire eleitoral é apenas um sintoma. A formulação desta hipótese é simples e assenta em dois pressupostos: o de que a capacidade de crescimento significativo do Bloco de Esquerda se faz essencialmente junto de eleitorado do PS; e que uma boa parte desse eleitorado, ao votar Bloco, tem a expectativa de que este contribua activamente para uma reorientação realista das políticas, não se confinando portanto ao altar do protesto (nem evitando, a todo o custo, qualquer compromisso com o poder e a governabilidade).
O BE encontra-se a atravessar um tempo decisivo de deinição, devendo reflectir, perante a encruzilhada, sobre o rumo a seguir (as opções são claras e a sua diferença é a que existe, por exemplo, entre limitar-se a propôr a suspensão do modelo de avaliação de desempenho docente ou apresentar e negociar, com o governo, um modelo alternativo). A eleição de José Manuel Pureza para líder parlamentar é um excelente sinal de que o Bloco de Esquerda quer trilhar o caminho da governabilidade e do compromisso com a vida quotidiana das pessoas. Que assim seja.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

fado


A singular homenagem dos Durutti Column a Amália Rodrigues, em 1991, com a inclusão de um sampler da sua voz no tema Fado (do álbum Sex and Death).

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

a inutilidade da pureza extraordinária

"É a vez da esquerda à esquerda do PS decidir se quer fazer alguma coisa com o milhão de votos que recebeu. Há duas possibilidades: ou Bloco e PCP se ficam a vigiar mutuamente na sua pureza extraordinária (e sem paralelo na Europa) e entregam a faca e o queijo à direita populista ou se entendem os dois para fazer dos seus 31 deputados alguma coisa. Basta que o BE e o PCP se sentem a uma mesa para decidir aquilo que realisticamente podem conquistar no Parlamento para a esquerda ter garantidas algumas vitórias importantes. (...) Acredito que no PCP e no BE haverá muita gente que respirou de alívio: se nenhum deles faz maioria com o PS nenhum deles poderá ser responsabilizado por nada. Erro. Mesmo que, daqui a uns anos, o seu eleitorado esteja ainda mais zangado, não deixará de os responsabilizar pela inutilidade em que transformaram o seu voto."

(Daniel Oliveira, no Expresso do sábado passado)

Domingo, Outubro 04, 2009

filmes do mês: setembro


Entre quatro filmes visionados no mês de Setembro, Inglorious Basterds, de Quantin Tarantino, entra para o conjunto de melhores do ano. Excelentes interpretações (em particular de Brad Pitt e Christoph Waltz), com a caricaturização necessária a um filme que, partindo de um contexto histórico concreto (a perseguição aos judeus na Alemanha nazi da II Guerra Mundial), pretende ser simultaneamente um filme de ficção/acção. O riso e o inverosímel a guiar uma forma original a revisitação de um dos acontecimentos mais dramáticos do Século XX.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

quixote ou nero?


Quem é hoje o Presidente da República portuguesa?

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

paranóia e irresponsabilidade (II)

"Lembremos os factos. (...) Pelo seu silêncio ruidoso, Cavaco Silva deixou que uma história inventada em Belém fosse aproveitada politicamente pelo PSD. Vir agora acusar o PS de ter tentado "arrastá-lo para a luta política" é o cúmulo da hipocrisia e do farisaísmo. Algo não está bem com o Presidente da República."
(Vital Moreira, Causa Nossa)

"Ouve falar há vários meses de suspeitas de escutas e só hoje se lembra de pedir a peritagem (não ao sistema de comunicações, mas ao sistema informático). Sabe que um seu assessor acusa o governo de espionagem, mas não o corrobora nem o desmente - e acha isso normal. Perante a notícia de que esse assessor falou em seu nome, afirma que ninguém fala em seu nome, mas também não o demite (apenas o afasta das funções). Quando todos vimos o PSD a usar as suspeitas de vigilância para alimentar a teoria da asfixia democrática, limita-se a acusar o “partido do governo” de tentativas de manipulação e insiste que é um homem isento. Fazendo a declaração mais destabilizadora que podia fazer neste momento delicado, quer que acreditemos que constitui o garante da normalidade democrática."
(Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas)

"Das duas uma: ou Cavaco Silva está a ser sincero em toda esta novela e então o seu grau de paranóia é bem superior ao que se julgava; ou está a tentar manipular opinião pública num assunto de uma enorme gravidade e teremos de concluir que o país colocou em Belém um homem perigoso."
(Daniel Oliveira, Arrastão)

Terça-feira, Setembro 29, 2009

opera buffa

"Enquanto a ópera séria trata com grande formalismo de temas míticos, heróicos ou da realeza, com vozes maioritariamente agudas mesmo para papéis masculinos, com raros baixos ou barítonos (...), a opera buffa enfoca assuntos prosaicos, em tramas engenhosas, vivazes e humorísticas. As vozes não tendem a ser "belas", mas sim inusitadas e evocativas, ágeis e ricas em nuances de expressão." (Definição na Wikipedia)
Hoje às 20.00h, num televisor perto de si.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

difícil de parte a parte

"O eleitorado não tem confiança na maioria absoluta; mas quer ser governado à esquerda. Qualquer acordo à direita será feito contra uma maioria do eleitorado. (...) Acima de tudo, não muda o partido vencedor, que é o PS. E não muda o primeiro-ministro. Mas não mudando isso, José Sócrates terá de ser um primeiro-ministro muito diferente. (...) Se quiser começar a criar um diálogo à esquerda, a conversa terá que ser séria e profunda e, não tenho dúvidas, difícil de parte a parte (três partes: PS, BE e PCP). O país continua à espera."
(Do artigo de Rui Tavares, no Público de hoje)

Os próximos tempos vão ser excepcionalmente cristalinos para avaliar o sentido de responsabilidade do PS, do BE e da CDU relativamente à governabilidade do país. As primeiras reacções, de todos eles, são contudo evasivas. O PS escuda-se na vitória para não aceitar governar com o programa de outro partido. O BE e a CDU invocam o compromisso com os seus eleitores, selado com os respectivos programas, para indiciar a inviabilização de propostas do governo eleito.
Mas todos sabem que não é de nada disto que se trata. Todos sabem que a questão essencial se encontra na capacidade para estabelecer compromissos, em matérias e com o consenso que for possível, espectável e exigível.
A menos que surja uma improvável solução de coligação ou um acordo de incidência parlamentar, é esta capacidade e disponibilidade que serão a partir de agora escrutinadas, no comportamento que vierem a ter os três partidos da esquerda portuguesa com representação parlamentar.

Domingo, Setembro 27, 2009

songs for the season

Sábado, Setembro 26, 2009

o caso de belém

"O comportamento errático de um Presidente da República (como Eanes facilmente lhe explicará) não se desculpa com facilidade. Do Presidente da República, o grosso do país quer um "sim" ou um "não". E Cavaco, às vezes, pareceu achar que sim, que o andavam a vigiar (não desmentiu nada e prometeu um inquérito aos serviços de informação); e às vezes pareceu achar que não, que não o andavam, de facto, a vigiar, e demitiu Lima, o fidelíssimo Lima, presumivelmente como autor único e provado de "O caso de Belém". Claro que só se vai saber a verdade na última página. Entretanto, ficaram vários cadáveres pelo caminho."
(Vasco Pulido Valente, no Público de ontem).

Alguém devia ajudar o Dr. Cavaco a acabar o mandato com dignidade.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

sondagens


Síntese das últimas sondagens (Universidade Católica, Marktest, Aximage e Intercampus), referentes às eleições legislativas do próximo domingo. A linha que separa a barra vermelha da amarela assinala a média dos valores obtidos para cada partido nas quatro sondagens. A barra vermelha indica a diferença entre o valor mínimo obtido em relação à média e a barra amarela a diferença entre a média e o valor máximo obtido por cada partido com representação parlamentar. A convergência de resultados é evidente (com uma amplitude máxima de 2,5% no caso do PSD e uma amplitude mínima de 0,9% para o CDS), sendo certo, naturalmente, que o número de indecisos é ainda muito relevante em qualquer dos exercícios.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

maths and economics

"Poucos economistas perceberam a emergência da crise actual, mas essa falha de previsão foi o menor dos problemas. O mais grave foi a cegueira da profissão face à possibilidade de existência de falhas catastróficas numa economia de mercado. O papel da economia perdeu-se porque os economistas, enquanto grupo, se deixaram ofuscar pela beleza e elegância vistosa da matemática. Porque os economistas da verdade tombaram de amores pela antiga e idealizada visão de uma economia em que os indivíduos racionais interagem em mercados perfeitos, guiados por equações extravagantes. Infelizmente, esta visão romântica e idílica da economia levou a maioria dos economistas a ignorar que todas as coisas podem correr mal. Cegaram perante as limitações da racionalidade humana, que conduzem frequentemente às bolhas e aos embustes; aos problemas das instituições que funcionam mal; às imperfeições dos mercados - especialmente dos mercados financeiros - que podem fazer com que o sistema de exploração da economia se submeta a curto-circuítos repentinos, impredizíveis; e aos perigos que surgem quando os reguladores não acreditam no regulamento. Perante o problema tão humano das crises e depressões, os economistas precisam abandonar a solução, pura mas errada, de supôr que todos são racionais e que os mercados trabalham perfeitamente."
(Paul Krugman, New York Times de 2 de Setembro).
Este texto daria posteriormente origem à Petição "Revitalizing Economics After the Crash", encontrada aqui.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

middle ages ending


Pieter Bruegel the Elder (Século XVI), The Seven Deadly Sins
Na Idade Média morria-se dolorosa e facilmente com uma simples otite ou cárie dentária. As respostas da medicina eram então rudimentares, violentas ou mesmo inexistentes, é certo. Mas neste século XXI, nos Estados Unidos, morrem todos os anos 45 mil pessoas, pelas mais diversas razões, em virtude de não terem um seguro de saúde, que lhes permita ter acesso a cuidados médicos. A criação de um Sistema Nacional de Saúde, que Obama tem defendido, de forma enérgica e determinada, é um passo que engrandece e dignifica a democracia americana. Apenas subsiste a dificuldade em perceber como é possível que um direito civilizacionalmente tão elementar apenas hoje comece a conhecer a luz do dia, no país mais desenvolvido do mundo.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

i beg your pardon?!

"José Manuel Durão Barroso será certamente re-eleito como Presidente da Comissão Europeia (...), mas não com o meu voto a favor. (...) Determinei o meu sentido de voto hoje tendo em atenção a posição de abstenção, democraticamente decidida no Grupo dos Socialistas e Democratas Europeus (...). E, ainda, tendo consciência de que, independentemente da avaliação negativa que faço sobre o Dr. Barroso, o facto de haver um português à frente da Comissão tem repercussões positivas na cotação e empregabilidade dos portugueses nas instituições europeias."
(Ana Gomes, Causa Nossa)

É suposto que a eleição de um presidente da Comissão tenha repercussões na cotação e empregabilidade dos seus concidadãos, nas instituições europeias? Com que fundamento?

Domingo, Setembro 20, 2009

cidades com estátuas (XVII)


Santiago de Compostela (Julho de 2009)

Sábado, Setembro 19, 2009

paranóia e irresponsabilidade (I)

"O Diário de Notícias confirma hoje que a historia da "espionagem" do Governo sobre Belém foi forjada pelo assessor do Presidente da República Fernando Lima, que a "plantou" no Público, nao tendo havido a mínima confrimação factual da inverosímil história. O episódio revela um inaudito grau de paranóia política em Belém, que só pode comprometer Cavaco Silva, mesmo que não tenha fundamento a alegação de que a acusação foi feita a pedido do próprio Presidente. O Presidente só tem uma saída para varrer a sua testada: afastar imediatamente a conspirativa personagem."
(Vital Moreira, Causa Nossa)

"Nada disto, a infantilidade da Presidência, a falta de profissionalismo do director do “Público” e a ligeireza de Ferreira Leite, teria muita relevância não fosse dar-se caso do tema em apreço ser de um enorme melindre. Num país normal, faria mesmo, caso se provassem as escutas, a queda de governantes. E caso se provasse a sua falsidade, a queda do Presidente. Aqui, no meio desta autêntica orgia de irresponsabilidade, tudo continua a ser tratado como se fosse uma mera troca de galhardetes. Não percebem José Manuel Fernandes, Manuela Ferreira Leite e, acima de tudo, Cavaco Silva, que estão a brincar com o fogo."
 (Daniel Oliveira, Arrastão)

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

o criado


Cartoon de António Jorge Gonçalves, no (Inimigo) Público de hoje

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

responsabilidades

"Já fiz muitos discursos sobre Educação e falei muito de responsabilidade. Falei da responsabilidade de os vossos professores vos motivarem, de vos fazerem ter vontade de aprender. Falei da responsabilidade dos vossos pais de vos manterem no bom caminho, de se assegurarem de que vocês fazem os trabalhos de casa e não passam o dia à frente da televisão ou a jogar com a playstation. Falei da responsabilidade do vosso governo de estabelecer padrões elevados, de apoiar os professores e os directores das escolas e de melhorar as que não estão a funcionar bem e onde os alunos não têm as oportunidades que merecem. No entanto, a verdade é que nem os professores e os pais mais dedicados, nem as melhores escolas do mundo são capazes do que quer que seja se vocês não assumirem as vossas responsabilidades. Se vocês não forem às aulas, não prestarem atenção a esses professores, aos vossos avós e aos outros adultos e não trabalharem duramente, como terão que fazer se quiserem ter sucesso."

(Do discurso de Barack Obama sobre Educação, na abertura do ano lectivo)

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

quo vadis, europa?

O mais improvável sobrevivente político da cimeira dos Açores, Durão Barroso, foi hoje reconduzido no cargo de presidente da Comissão Europeia. Aznar, Blair e Bush, apesar de tudo mais politicamente convictos da invasão do Iraque, foram sendo apeados do trilho da História.
Ora é curiosamente ele, Barroso, o mais inconsistente, viscoso e subserviente de todos, aquele que mais agiu em função do seu estrito interesse pessoal (a ele sim, se aplica o que dizia há dias Manuela Ferreira Leite sobre ser capaz de "matar o pai e a mãe só para ser órfão"), quem sobrevive, condenando a Europa  a mais cinco anos de letargia, incapacidade e calculismo pessoal.
Barroso defenderá o que for preciso, uma coisa e o seu contrário, sem qualquer centelha de convicção ideológica ou escrúpulo, para se manter à tona de água. Num tempo em que se exige determinação e real capacidade de mudança, no tempo de Obama, é esta parda figura que o parlamento escolhe para a liderança europeia. Quo vadis, Europa?

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

filmes do mês: agosto

Harry Potter and the half blood Prince, de David Yates, do qual à partida (como neste caso), muito pouco haveria a esperar. Mas a aproximação a uma espécie de tangibilidade (semelhante à que encontramos em "O Exorcista"), capturando a narrativa ao estrito domínio do fantástico (quando comparado com os seus congéneres anteriores da série), o rumo do argumento e a ambiência dos planos e imagens (a lembrar Tim Burton), tornam-no num filme digno de figurar nesta rubrica. Two Lovers, de James Gray, por expor de forma envolvente e realista (evitando assim tornar-se numa estopada cor-de-rosa) angústias e indecisões amorosas.

Sábado, Setembro 12, 2009

direita, esquerda e despesa pública (II)

"A líder do PSD diz que se propõe diminuir a despesa pública para depois poder baixar os impostos. É puro farisaísmo. O programa do PSD implica uma enorme subida da despesa pública. A compensação da segurança social pela diminuição de 2 pontos percentuais da contribuição social patronal iria custar ao orçamento centenas de milhões de euros. Os encargos orçamentais com o pagamento dos cuidados de saúde privados, ao abrigo da proposta da "liberdade de escolha" do prestador, não seriam de menor montante. Os vários programas de ajuda às empresas não ficariam por menos. O elevação dos encargos com os certificados de aforro acarretariam outro enorme aumento da despesa. Perante estas propostas despesistas, só por pura hipocrisia é que se pode falar em diminuir os gastos públicos, a não ser que o PSD se proponha compensar essa nova despesa pública com cortes noutros sectores. Mas onde: na educação, no SNS, nas prestações sociais, na segurança na defesa?"

(Vital Moreira, Causa Nossa)

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

new york google earth

Domingo, Setembro 06, 2009

escolhas

"Como todos os partidos, o Bloco tem voto convicto e voto de protesto. Mas tem também, mais do que qualquer um, voto de expectativa depois da desilusão com os outros. E é com esses eleitores que o BE tem mantido uma relação ambígua. A maioria deles espera, um dia, ver o BE no poder. (...) O problema é que os principais dirigentes do Bloco ainda não disseram se estão ou não interessados no poder. Assim como não disseram se se vêem a si próprios como uma alternativa programática ao PS ou como alternativa ao PCP na defesa do património comunista. As duas escolhas são legítimas, as duas têm perigos, mas qualquer uma delas tem de ser clara.
(...) Depois da alegria da vitória, virão tempos difíceis. Apenas uma coisa é certa: a nebulosa de uma escolha por fazer não poderá durar muito mais tempo. Porque nenhum partido com o peso que se espera que o Bloco venha a ter pode viver de mal-entendidos.
"

(Do artigo de Daniel Oliveira, no Expresso de 29 de Agosto)

Sábado, Setembro 05, 2009

cidades com estátuas (XVI)

Santiago de Compostela (Julho de 2009)
(Foto de Teresa Gonçalves)

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

os debates

Face aos dois primeiros frente-a-frente do ciclo de debates que colocam em confronto os líderes dos partidos com representação parlamentar, fica-se com a noção de que os mesmos se tornam bastante esclarecedores, sobretudo quanto às propostas programáticas de cada um. E se dúvidas subsistissem quanto a isto, teriam sido hoje mesmo dissipadas com o artigo de Vasco Pulido Valente no Público, onde o colunista (cuja espírito de contra-corrente constitui o seu nicho de mercado comunicacional) refere: "se alguém espera ficar «esclarecido» ou informado com os dez «debates» entre o primeiro-ministro e os chefes dos partidos da oposição, vai ficar desiludido.".

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

caeiro revisitado

eles dizem, por exemplo, que os amanhãs cantam mas os amanhãs não cantam nada se cantassem seriam cantores os amanhãs existem e mais nada e por isso se chamam amanhãs

Terça-feira, Setembro 01, 2009

manafon

Sylvian is back. Manafon, a lançar em meados de Setembro, apresenta-se como uma sequela do denso e viscoso Blemish (lembrando temas como The good son, ou Playground Martyrs, do álbum Slope de Steve Jansen, em que colaborou). É o próprio David Sylvian, aliás, que classifica Manafon como "a sister piece to the Blemish album". Vale muito a pena espreitar o vídeo promocional da primeira faixa (Small Metal Gods), de Hiraki Sawa.
Começa bem o fim do Verão.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

but we don't

"Oh, Kay. Greg Mankiw looks at a graph showing that children of high-income families do better on tests, and suggests that it’s largely about inherited talent: smart people make lots of money, and also have smart kids.
But, you know, there’s lots of evidence that there’s more to it than that. For example: students with low test scores from high-income families are slightly more to finish college than students with high test scores from low-income families.
It’s comforting to think that we live in a meritocracy. But we don’t.
"

(Paul Krugman, Heredity, environment, justice)